segunda-feira, 14 de setembro de 2026

SHIVA

 


Shiva é uma dádiva que se fornece por Ele mesmo para o ser humano de cada uma das épocas ter consciência de si e de Deus. Ele se faz compreender a partir de diferentes ângulos de visão, porém, dentre tais ângulos, apenas os que se referem à mais plena compreensão dEle serão aqui considerados.

A plenitude da compreensão de Shiva está na absoluta consciência, a qual só pode ser alcançada através do amor puro e da perfeita devoção. Então, como é apresentado em Shiva Tantra para a Libertação Espiritual (2017):

“Assim como em Ardhanareshwar, a condição andrógina de Shiva (em Shakti) e/ou de Shakti (em Shiva), há União Mística perfeita, a alma in­dividual atinge sua bem-aventurança ao encontrar dentro de si o que a leva a realizar aquela mesma condição em Bhagavan, in­dependente da identidade que Ele tenha para quem o busca. Ao realizar a União Mística dos dois princípios opostos e comple­mentares originais, então, a pessoa humana realizará o equilíbrio entre ambos os princípios dentro de si”.

Bhagavan é a Pessoa de Deus, é Shiva, Shankara, Mahadeva. A União Mística é a perfeita maneira de existir, com clareza de consciência eterna e, portanto, ininterrupta. Quando a alma atinge tal estado de autocontemplação, ela conhece Shiva. Desejamos falar sobre Ele, a Shakti e a alma em estado de sat-cit-ananda - felicidade eterna na vivência da suprema verdade.

Se quiser nos conhecer melhor, entre em contato através do e-mail srikrishnamadhurya@gmail.com.

 

Veja também:

Mística Luz dos Jardins de Krishna

https://jardinsdekrishna.com/


Shri Krishna Madhurya

http://srikrishnamadhurya.blogspot.com/

 

O Casamento de Ganapati (Shiva Mahapurana 2.4.1-55)


No Ganesha Chaturthi, que acontece hoje, selecionei esse capítulo do Shiva Mahapurana, parte 2, sessão 4, que trata do Casamento de Ganapati, como parte de um estudo que fizemos no nosso Templo Neo Bhagavata. Já conhecemos, de outros momentos, como acontece o aparecimento de Ganesha. Vimos aquele conflito que se forma entre Shiva e Ganesha, envolvendo todos os Ganas; e como que Ganesha recebe a cabeça com forma de elefante e várias bênçãos de muitos semideuses que estavam ali presentes (em Kailash). Bençãos do próprio Senhor Brahma, do próprio Senhor Vishnu, do próprio Casal Supremo - Shiva e Parvati. Em seguida, o Shiva Mahapurana adentra no casamento de Ganapati, no capítulo 19[i]. Lembrando que, o Shiva Mahapurana é Brahma que está contando para Narada Muni.

 

Narada disse:

1. Ó caro pai, a história excelente da natividade de Ganesha e de sua conduta divina embelezada por valor foi bem ouvida.

2. Ó caro pai, ó senhor dos deuses, o que aconteceu depois? Por favor, narre. A grande glória de Parvati e Shiva confere grande prazer[ii].

 

Brahma disse:

3. Ó sábio excelente, você pediu bem com uma disposição simpática. Ouça atentamente, o que eu vou narrar.

4. Ó brâmane excelente, vendo frequentemente os passatempos divinos de ambos os filhos, o amor de Shiva e Parvati aumentou.

5. A felicidade dos pais não conhecia limites. Os filhos também costumavam se divertir em alegria e amor.

6. Ó grande sábio, os filhos prestaram um grande serviço aos seus pais com grande devoção[iii].

7. O amor e carinho dos pais para com o Senhor de seis faces[iv] e Ganesha aumentou em grande medida como a lua na metade clara do mês[v].

8. Ó sábio celeste, uma vez os pais amorosos, Shiva e Parvati, tiveram uma conversa e discussão secreta.

9. Eles achavam que os dois filhos tinham chegado à idade núbil, e o seu casamento deveria ser celebrado da melhor forma agora.

10. O Senhor de seis faces era o seu grande filho amado. Ganesha também o era. Pensando assim, eles ficaram preocupados e também alegres[vi].

11. Ó sábio, vindo a saber da opinião dos pais, os filhos também ficaram ansiosos para se casar.

12. "Eu me casarei, eu casarei", dizendo assim um ao outro eles sempre brigavam entre si.

13. O casal, os governantes dos mundos, ao ouvirem suas palavras, ficaram muito surpresos, seguindo as convenções mundanas.

14. Um recurso extraordinário foi planejado por eles depois de pensarem sobre o rumo a ser seguido na celebração de seu casamento.

15. Uma vez eles chamaram os filhos e falaram o seguinte.

 

Shiva e Parvati disseram:

16. Ó bons filhos, nós concebemos as regras conducentes à sua felicidade. Ouçam amavelmente. Nós vamos lhes dizer a verdade.

17. Vocês dois são bons filhos e iguais aos nossos olhos. Não há diferença. Assim, uma condição que é benéfica para ambos foi feita.

18. Será celebrado o casamento auspicioso daquele rapaz que chegar aqui primeiro após dar a volta na terra inteira[vii].

 

Brahma disse:

19. Ao ouvir suas palavras, o poderoso Kumara[viii] partiu imediatamente do ponto fixado, para dar a volta na terra.

20. Ganesha de intelecto excelente ficou lá mesmo depois de ter ponderado frequentemente em sua mente com seu intelecto aguçado.

21. "O que deve ser feito? Para onde eu devo ir? Eu não posso atravessar a terra. Na melhor das hipóteses, pode ser possível percorrer um Krosha[ix]. Eu não posso ir além disso.

22. De que vale aquela felicidade que é alcançada depois de andar ao redor da terra?" Por favor, ouça o que Ganesha fez depois de pensar assim.

23. Ele executou a ablução cerimonial[x] e voltou para casa. Ele então falou com seu pai e sua mãe.

 

Ganesha disse:

24. Para a sua adoração eu coloquei dois assentos aqui. Por favor, sentem-se, caros pais. Que o meu desejo seja realizado.

 

Brahma disse:

25. Ao ouvirem suas palavras, Shiva e Parvati ocuparam os assentos para receberem adoração.

26. Eles foram adorados por ele e circungirados sete vezes e reverenciados também sete vezes.

27. Unindo as palmas das mãos em reverência e louvando seus pais agitados por amor e afeição, muitas vezes, Ganesha, o oceano de inteligência, falou assim.

 

Ganesha disse:

28. "Ó mãe, ó pai, por favor, ouçam as minhas palavras significativas. O meu casamento auspicioso deve ser celebrado rapidamente."

 

Brahma disse:

29. Ao ouvirem as palavras do nobre Ganesha, os pais falaram a ele, o depósito de grande intelecto.

 

Shiva e Parvati disseram:

30. Você deve circungirar a terra com todas as suas florestas. Kumara já foi. Parta você também e volte primeiro.

 

Brahma disse:

31. Ao ouvir as palavras de seus pais, Ganesha falou imediatamente e furiosamente, mas com alguma restrição.

 

Ganesha disse:

32. Ó mãe, ó pai, vocês dois são inteligentes e a virtude encarnada. Por isso, ó excelentes, tenham a bondade de ouvir as minhas palavras virtuosas.

33. A terra foi circungirada por mim com frequência, por sete vezes. Por que, então, os meus pais falam assim?

 

Brahma disse:

34. Ao ouvirem as suas palavras, os pais desportivamente inclinados, seguindo as convenções mundanas, falaram com ele assim.

 

Os pais disseram:

35. Ó filho, quando é que a grande terra foi circungirada por você, a terra composta por sete continentes e que se estende aos oceanos e que consiste em vastas selvas?

 

Brahma disse:

36. Ó sábio, ao ouvir as palavras de Shiva e Parvati, Ganesha, a mina de grande intelecto, falou assim.

 

Ganesha disse:

37. Por adorar vocês, Shiva e Parvati, eu inteligentemente circungirei a terra que se estende até os oceanos.

38. Este não é o veredicto dos Vedas ou dos Shastras ou de qualquer outro código sagrado? Isto é verdade ou não?

39. "Aquele que adora seus pais e os circungira sem dúvida derivará o fruto e mérito de circungirar a terra.

40. Aquele que deixa seus pais em casa e sai em peregrinação incorre no pecado de tê-los assassinado.

41. O centro sagrado de um filho consiste nos pés de lótus de seus pais. Os outros centros sagrados podem ser alcançados apenas depois de percorrer uma longa distância.

42. Esse centro sagrado é próximo, facilmente acessível e um meio de virtude. Para um filho e esposa, o centro sagrado auspicioso está na própria casa[xi]."

43. Essas coisas são mencionadas com frequência nos Shastras e nos Vedas. Agora, eles serão contraditados por vocês?

44. Se for o caso, as suas próprias formas se tornarão falsas. Até mesmo os Vedas se tornarão falsos. Não há dúvida disso.

45. Que o meu casamento auspicioso seja celebrado e isso também muito rapidamente. Do contrário, que os Vedas e os Shastras sejam declarados falsos.

46. Das duas alternativas aquela que for excelente deve ser seguida, ó pais, virtudes encarnadas!

 

Brahma disse:

47. Dizendo assim, Ganesha de intelecto excelente, de grande sabedoria e o principal entre as pessoas inteligentes assumiu o silêncio.

48. Ao ouvirem suas palavras, Shiva e Parvati, os governantes do universo, ficaram muito surpresos.

49. Então Shiva e Parvati elogiaram seu filho, que era esperto e inteligente, e falaram a ele que tinha falado a verdade.

 

Parvati e Shiva disseram:

50. Ó filho, você é uma alma suprema e os seus pensamentos são puros. O que você disse é verdade e não o contrário[xii].

51. Quando o infortúnio vem, se uma pessoa é profundamente inteligente, os seus infortúnios perecem assim como a escuridão perece quando o sol nasce[xiii].

52. Quem tem inteligência possui força também. Como aquele que é desprovido de intelecto pode ter força? O leão orgulhoso foi afogado em um poço por um truque de uma pequena lebre[xiv].

53. Tudo o que foi mencionado dos Vedas e dos Shastras, tudo aquilo foi realizado por você, ou seja, a observância da virtude.

54. O que foi executado por você deverá ser feito por qualquer pessoa. Nós honraremos isso. Isso não será alterado agora.

 

Brahma disse:

55. Depois de dizerem isso e apaziguarem Ganesha, o oceano de inteligência, eles resolveram realizar seu casamento.





[i] A versão do Shiva Mahapurana aqui comentada foi editada por J. L. Shastri e traduzida para o inglês por um Conselho de Estudiosos (2018).

[ii] É sempre assim, quando a gente ouve as glórias das Divindades, associadas ao que muitas pessoas chamam de mitologia. Entendendo, a partir da ciência antropológica, o significado da mitologia, que não se refere a algo inventado. A mitologia é algo que está além da possibilidade do humano comum. E que, para a pessoa que tem determinada fé, é pura verdade, a mais pura verdade. Não é mentirinha não. E realmente ouvir as glórias das Divindades nos confere grande prazer, é assim que a gente tem que perceber as leituras das escrituras que fazemos com certa frequência.

[iii] Mesmo sendo Divindades, as Divindades continuam servindo os seus pais, que são Seres Divinos também, e aqui, mais especificamente, o próprio CasalSupremo.

[iv] Kartikeya, Skanda ou Murugan.

[v] Aqui ele está falando do período que, na ciência astrológica védica, envolve desde a lua nova, transitando pela lua crescente à lua cheia (Shukla Paksha), ou fase clara da lua. A fase escura da lua se estende da lua cheia à lua nova, passando pela lua minguante (Krishna Paksha).

[vi] É normal que seja assim, independente de se tratar de um passatempo divino em si, a cultura védica vê isso com bons olhos. Tem fases de vida que as pessoas precisam experimentar. E essa é uma fase importante, que é a fase do jovem casar, ter uma família e desenvolver a sua religião a partir da vida de casado (Grihastha Ashram).

[vii] Já havia uma negociação em curso com o Prajapati Vishwarupa, para casar suas duas filhas, Siddhi (Divindade do Poder) e Buddhi (Divindade da Inteligência), com um dos dois filhos de Shiva e Parvati.

[viii] Outro nome de Kartikeya ou Skanda.

[ix] O valor exato depende de qual é o período védico, podendo ser equivalente a aproximadamente 3 quilômetros.

[x] Fazer uma ablução cerimonial é necessário sempre que se vai começar um rito sagrado, religioso. É preciso purificar-se com a água sagrada. Para tanto, ou você se banha em água sagrada, como, por exemplo, nas águas de um rio sagrado da Índia (rio Ganges, rio Yamuna ou outro), ou você usa uma água que foi consagrada aos rios, como a gente faz nos templos que estão distantes dos mesmos rios.

[xi] Segundo as escrituras védicas, o filho não deve abandonar os pais e sair peregrinando. Se deixar os pais sozinhos e sair peregrinando, então não estará peregrinando, não estará cumprindo com seus deveres religiosos. Isso está nos Vedas, onde os pais são mencionados como o centro sagrado de um filho. Lembrando, no entanto, que os Vedas estão falando de pais espiritualmente qualificados, bem como de filhos espiritualmente qualificados. Nesses casos, a religião do filho é também adorar os pais, cuidar dos pais, o que faz parte da situação de uma família situada em uma religiosidade pura e sagrada.

[xii] Então aqui já vem, de dentro dos Shastras, das escrituras sagradas védicas, uma grande lição. Tanto para os filhos, na sua religiosidade, de consagrarem seus pais como algo sagrado, quanto para todos os devotos compreenderem que os Shastras são a mais pura verdade. Além do que, eles também ensinam que Shiva e Parvati devem ser referenciados como o Casal Supremo, como o próprio planeta e os universos; e que Ganesha é a fonte da inteligência pura e da verdade.

[xiii] Então o infortúnio aqui foi um sofrimento que Ganesha teve no primeiro momento, ao pensar “mas eu vou ter que dar a volta na Terra”. Porém, devido à sua inteligência, a inteligência verdadeira, a inteligência sagrada, a inteligência dos Vedas, que aparece nos Vedas, que se expressa nas Escrituras Sagradas, ele se libertou daquilo que poderia ser um infortúnio. O infortúnio se tornou o que? Luz. Então essa é a ideia, que a prática dos ensinamentos sagrados, a prática dos ensinamentos dos Shastras, ela nos libertemde qualquer forma de infortúnio, nos trazendo as lições que estão por trás das coisas, as lições verdadeiras.

[xiv] Trata-se de uma referência a um episódio contado em uma das fábulas do Panchatantra, sobre o leão, que por ser orgulhoso de sua força, se afogou; enquanto a lebre se salvou devido à sua inteligência. Algumas das fábulas, escritas em Sânscrito, aparecem também no Rig-Veda e nos Upanishads, estando conectadas aos Nitishastras – o livro para a condução sábia da Vida (https://www.banyantree.in/jagdishpur/wp-content/uploads/2020/06/Panchatantra-.pdf). Por não ser parte da eternidade do pensamento de Shiva, penso que a referência que aparece nos versos do Shivapurana foi inserida pelo tradutor.

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