sábado, 8 de junho de 2024

Shiva não é apenas um deus, Ele é o Deus Supremo

 


Shiva é uma divindade consagrada do Hinduísmo e de outras linhas de espiritualidade e religiosidade no ethos da Nova Era[i]. Alguns dos seus devotos o percebem como o Deus Supremo, sendo a esta maneira de compreendê-lo que o presente artigo se refere. Portanto, Shiva é aqui tratado em uma perspectiva religiosa. Nesse sentido, é importante notar que, para os Shaivas monistas (na tradição advaita), “quem reverencia, o objeto reverenciado e a reverência são absolutamente a mesma coisa – Shiva[ii]”. Mas, para os Shaivas dualistas (na tradição dvaita), Deus, a alma e o mundo são eternamente separados[iii]. Tem-se aqui duas maneiras de compreendê-lo.

Há, no entanto, uma terceira compreensão, a do shaivismo da tradição vishistadvaita, segundo a qual, Shiva é imanente no universo e, ao mesmo tempo, transcendente a ele. Shiva não nasce como um mortal, mas aparece em forma visível sempre que é adorado pelos devotos. A verdadeira natureza da alma (jiva) é estar em união com Shiva, mas, mesmo em estado liberado a alma é diferente de Deus. Porém, ela compartilha da natureza de Shiva, sendo semelhante a Ele. No entanto, tal relação não significa não-diferença, significa não separação[iv].

Dentro de tal relação entre diferentes é que se desenvolve uma vida em comum com Shiva. Para exemplificar, me refiro à madhurya (doçura conjugal), um estado de união com Deus que mais comumente vem sendo associado à relação pessoal com Krishna. Só que na concepção da Pessoa Suprema a que estou me referindo, Krishna Shiva confluem em Harihara, embora existam muitos devotos no mundo que prefiram adorar apenas um dos dois como sua divindade maior.

A confluência de Vishnu (Krishna) e Shankara, a que me refiro, aparece em um templo de Karnataka, Índia – Sri Sankaranarayana Temple[v]. De dentro dela, percebo que "Deus se manifesta na forma de uma Pessoa Suprema, a qual se chama Krishna, e tem muitos nomes. É possível compreendê-lo, percebê-lo ou vê-lo em alguma outra forma (como Harihara), ou através de algum outro nome (como Shiva), mas, Ele é sempre o mesmo [vi]”. Sendo assim, "o Senhor Shiva é o Absoluto Senhor e sua Luz nos ilumi­na sempre, bastando olhar para ela com atenção e vê-la, para que a vida se traduza, de modo a esclarecer a mente e o coração de quem olha e vê[vii]”.



Notas:

[i] O ethos da Nova Era é um conjunto de crenças e práticas que têm por finalidade a busca por elevação espiritual, sem associação a algum tipo de pertencimento religioso, dentre as quais, algumas já se tornaram aceitas pela sociedade em geral (GUERRIERO et al., 2020).

[ii] Andrade (2012, p. 269) assim o descreve: Shiva é o grande e o único “ator/agente”. Infinita fonte criativa de realidade, Shiva, ens realissimo – se revela incapaz de conter em si a criação da realidade; como Kali Ma, ele vomita a realidade: esse jorro de atividade criativa é comparado ao de um artista que cria por pura necessidade, sendo impossível não o fazer. Esse ato seminal criativo é visto como um transbordar, uma superabundância de ser, uma felicidade intoxicante, uma alegria infinita. Essa sua “alegria” (amoda) manifesta-se como “brincadeira” (krida), “jogo, passatempo”, principalmente em suas cinco principais atividades, já mencionadas, uma das quais consiste exatamente em seu próprio “esquecimento-de-si”, sua alienação, escondendo-se, ocultando-se (vilaya) em sua própria criação – a bem dizer escondendo-se no próprio enredo das coisas, para que seja possível criar as condições de possibilidade da jornada dos adeptos em busca de Shiva que, como em verdade o/a buscador/a descobre no final da jornada, é a sua própria natureza mais recôndita (anugraha,“re-velação”). Shiva, portanto, “se dissolve” (klpta), “arranja-se, dispõe-se” como o Todo, como a realidade, escondendo-se no e se revelando como o real.

[iii] Explicação de Bodhinatha Veylanswami (2016), disponível em: https://www.himalayanacademy.com/view/bd_2016-12-16_path-to-siva_lesson-9_commentary. Acessado a 9 out, 2021.

[iv] Assim é a compreensão de Shiva na linha de Tirumular da escola Saiva Siddhanta, que é chamada Shuddha Saiva Siddhanta. As informações foram obtidas de Mahadevan (1953).

[v] O templo fica localizado no vilarejo de Shankaranarayana, no Distrito de Udupi, Karnataka, a 25 Km do Mar Arábico. Mais informações podem ser encontradas em http://shankaranarayana.org/.

[vi] Trecho do livro de minha autoria, no qual transcrevo alguns raciocínios que vêm do pensamento do próprio Shri Krishna. A obra é intitulada Religião Bhagavata da Nova Era, Sétimo Raio, 2014.

[vii] O livro é Shiva Tantra para Libertação Espiritual – o Tantra da Pessoa de Deus (Bhagavan), Editora Sétimo Raio, 2017. Nesse livro, transcrevo sete diálogos que Shiva estabeleceu comigo.

 

Referências

ANDRADE, C. B. O monismo Shivaíta da Caxemira e sua inserção no debate filosófico Indiano. Numen: Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, v. 14, n. 2, p. 261-280, 2012.

GUERRIERO, S.; LEITE, A. L. P.; BEIN, C.; MENDIA, F.; STERN, F. L.; MARTINS, L. Concepções de saúde, cura e doença no ethos Nova Era: um estudo piloto entre Terapeutas Holísticos de São Paulo e Florianópolis. Caminhos, v. 18, n. 1, p. 106-119, 2020.

MAHADEVAN, T. M. P. The idea of God in Saiva Siddhanta. Disponível em: https://shaivam.org/articles/the-idea-of-god-in-saiva-siddhanta. Acessado em 9 out, 2021.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Shiva Purana 1.41 – Os Devas louvam Shiva

 


Após a destruição da arena do sacrifício de fogo de Daksha (o pai de Sati) e dele mesmo, Vishnu (louvando a Si mesmo, autoconsciente em Harihara, em Shiva, portanto) e outros (Devas) disseram:

 

1. Ó Grande Senhor, o Senhor dos devas e o prescritor das convenções mundanas, sabemos que és Shiva e Brahman, graças ao teu favor.

2. Ó Senhor Shiva, porque nos iludes com a tua ilusão que é insondável e que ilude sempre as pessoas.

3. Tu és o Brahman supremo, maior que Prakrti e Purusha, a causa material e ativadora do universo. Tu és incompreensível e inexprimível.

4. Só Tu crias, sustentas e aniquilas o universo sob o teu controle como uma aranha (tecendo a sua teia). Tu te movimentas com Sivashakti - a tua própria manifestação.

5. Ó Shiva, misericordioso que és, só tu criaste o sacrifício através de Daksha para o cumprimento dos Vedas.

6. As delimitações em que os brâmanes, peritos no caminho védico e nos rituais, acreditam, terminam convosco no mundo.

7. Ó Senhor, as atividades de natureza auspiciosa resultam em felicidade para o executor, enquanto as atividades inauspiciosas terminam em resultados adversos, ou parcialmente bons e maus.

8. Só Tu és o doador dos frutos de todas as ações. Tu és o Senhor das coisas gloriosas, de acordo com os Vedas.

9. As pessoas vulgares que observam ritos de sacrifício são desagradáveis e perversas. Com palavras ásperas e inveja, essas pessoas iludidas infligem dor aos outros.

10. Ó Senhor, não deixes que a destruição destes Devas seja feita por vós. Ó Senhor, Grande Deus, sê misericordioso.

11. Obediência a Shiva, que é calmo, a alma suprema e mais elevada, de cabelo emaranhado, grande Senhor e luminoso.

12. Tu és o criador dos criadores do universo. És o sustentador e o antepassado, possuidor de três atributos e sem atributos. És maior do que a natureza primordial e o Ser supremo.

13. Obediência a Ti, o de pescoço azul, o criador, a alma suprema, o universo, a velocidade do universo e a causa da bem-aventurança do universo.

14. Tu és Omkara (o doador do som primordial), Vashatkara (da exclamação dos sacerdotes após o sacrifício do fogo), o iniciador de empreendimentos, Hantakara, Svadhakara (ambas formas de bendizer) e o participante das oferendas de Havya e Kavya sempre.

15. Ó justo, como é possível que o sacrifício tenha sido quebrado por ti (se referindo à destruição da arena do sacrifício de Daksha, pai de Sati)? Ó Grande Deus, tu és um benfeitor dos brâmanes. Ó Senhor, como podes ser um destruidor de sacerdotes (já que destrói a tudo, para de novo criar)?

16. Tu és o protetor da virtude, dos brâmanes e das vacas. Ó Senhor, sois o abrigo de todos os seres vivos e digno de ser venerado.

17. Obediência a ti, ó Senhor, que tens o esplendor de inumeráveis sóis. Obediência a ti, ó Bhava, o senhor na forma de sabor e fluido.

18. Obediência a ti que és tudo, que tens a forma de terra perfumada. Obediência a Ele de grande esplendor, Ele na forma de fogo.

19. Obediência a Shiva, que é o vento na forma sutil do princípio do toque. Obediência a ti, o senhor das almas individuais, o sacerdote que preside ao sacrifício; e Vedhas (o criador).

20. Obediência a ti, o terrível na forma de Éter com o princípio do som. Obediência ao grande Senhor Lua, ou, aquele acompanhado por Uma (Parvati); obediência ao Ativo.

21. Obediência a Ugra na forma de Sol; obediência a ti, o executor desapegado de ações, o matador de Kala e o furioso Rudra.

22. Obediência a Shiva, Bhima, Ugra, o controlador dos seres vivos; tu és Shiva para nós.

23. Obediência ao doador de prazer, à alma universal omnipresente, o destruidor da angústia; o consorte de Uma (Parvati).

24. Obediência ao aniquilador, o Ser supremo na forma de todos os objetos, a grande alma que é indistinguível do existente e do inexistente, e é a causa do intelecto.

25. Obediência, obediência àquele que é todo-poderoso e o abundante; obediência a Nila, Nilarudra, Kadrudra e Pracetas.

26. Obediência ao Senhor mais generoso que é permeado por raios, que é o maior e o destruidor dos inimigos dos deuses.

27. Obediência a Tara (estrela), Sutara (aquele que permite que outros atravessem), Taruta (o sempre jovem), e o brilhante.

28. Obediência a Shiva, que é benéfico para os Devas, o Senhor, a grande alma, Obediência a ti, o grande; Obediência a ti, o Deus de pescoço escuro.

29. Obediência ao dourado, o grande senhor, de corpo dourado; obediência a Bhima, Bhimarupa, obediência àquele que se dedica a ações terríveis.

30. Obediência àquele que manchou o seu corpo com cinzas, decorou-se com Rudraksha; e tem uma estatura baixa e anã.

31. Obediência a ti, ó Senhor, que podes matar à distância, em frente a quem tem um arco, um tridente, uma maça e um arado.

32. Obediência ao portador de muitas armas, ao destruidor de Daityas e Danavas (seres demoníacos), a Sadya, Sadyarupa e Sadyojata.

33. Obediência a Varna, Vamarupa, Vamanetra, Aghora, o grande Senhor e o Vikata.

34. Obediência a Tatpurusha, a Natha, o antigo Purusha, o outorgador dos quatro objetivos da vida, Vratin e Paramesthin.

35. Obediência a ti, lshana, Ishvara, Brahman, da forma de Brahman, a Alma Suprema.

36. Tu és feroz para com todas as pessoas más; para nós és Shiva, o controlador. Obediência a ti, o engolidor do veneno de Kalakuta, a causa da proteção dos Devas e dos outros.

37. Obediência a Vira, Virabhadra, o protetor dos heróis, o detentor do tridente, o grande Senhor da Humanidade.

38. Obediência a Ele da alma heróica de aprendizagem perfeita, Srikantha, Pinakin, o infinito, o sutil, aquele cuja raiva é a causa da morte.

39. Obediência ao grande Senhor, maior do que o maior, o maior dos grandes, o Senhor todo-penetrante multiforme.

40. Obediência a Vishnukalatra, Vishnukshetra, o sol, Bhairava, o refúgio dos refugiados, o de três olhos e o desportivo.

41. Obediência a Mrtyunjaya, a causa da tristeza, da forma de três atributos, um com a lua, o sol e o fogo como olhos, à ponte de toda e qualquer causa.

42. O universo inteiro é permeado por ti com o teu próprio esplendor; Tu és o grande Brahman, a consciência imutável, bem-aventurança e luz.

43. Ó Senhor Shiva, todos os Devas encabeçados por Brahma, Vishnu (ambas formas Suas, do Supremo Deus), Indra, a Lua, os sábios e outros nascem de ti.

44. Uma vez que deténs tudo, dividindo o teu corpo cósmico em oito, és conhecido como Astamurti, és o Shiva primordial, o misericordioso.

45. Com medo de ti o vento sopra, o fogo arde, o sol brilha e a morte corre por todo o lado.

46. Ó Grande Senhor, o oceano de misericórdia, fica satisfeito. Salva-nos para sempre, pois estamos condenados por falta de fortaleza.

47. Ó Senhor misericordioso, nós temos sido sempre protegidos só por ti das diversas misérias. Protege-nos agora, da mesma forma.

48. Ó Senhor, o abençoador, ó Senhor de Durga, revive imediatamente o sacrifício incompleto de Daksha Prajapati (o pai de Sati).

49. Que Bhaga recupere a visão, que o iniciado Daksha volte à vida, que os dentes de Pushan cresçam, que os bigodes de Bhrgu apareçam como antes.

50. Ó Shiva, que os Devas e outros, cujos corpos foram mutilados por armas e pedras, recuperem a sua saúde normal anterior sob a tua bênção.

51-52. Ó Senhor, a totalidade da vossa parte ser-vos-á atribuída. Vasistha oficiará no sacrifício, o sacrifício terá a parte de Rudra, e não de outro modo (louvor dito após Shiva ter destruído a arena de sacrifício de Daksha, que se negou a oferecer a parte do sacrifício a Ele). Dizendo isto, Vishnu, o Senhor de Lakshmi, juntamente com Brahma, implorou o perdão de Shiva prostrando-se no chão (isso porque, apesar de Shiva não ter sido convidado por Daksha, Vishnu e Brahma participaram do mesmo sacrifício).

 

Daksha, o pai de Sati, que é a própria Shakti de Shiva, outra forma de Parvati (Durga), orgulhoso de si mesmo, sentindo-se ofendido, por Shiva não lhe prestar reverências, causou destruição. A destruição merecida do seu orgulho e arrogância, a partir dos quais, Daksha causou o desgosto de Sati, que abandona a forma, através do poder do próprio fogo. Sati vive o desgosto de ver o Senhor de tudo, poderoso e onisciente, Shiva, ser desrespeitado por seu próprio pai. Decide deixar de ser a filha dele e abandona momentaneamente a lila (passatempo), ateando fogo ao próprio corpo, pelo poder de Seu Yoga. Shiva atribui a Virabadhra, uma forma sua irada, a função de destruir a arena de fogo, o sacrifício (yajna) de Daksha e o próprio Daksha. Depois do acontecido, Vishnu, Brahma e os Devas (semideuses das regiões celestiais) louvam a Shiva, através dessas palavras. Que elas sejam para sempre ouvidas por todos.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Varanasi, cidade de Shiva



Varanasi fica localizada no estado de Uttar Pradesh, norte da Índia[i]. Ao chegar nela, vivenciamos um tipo de hospitalidade que só se encontra no país indiano. Fomos recebidos calorosamente, com conforto e tudo que pudesse ser do nosso agrado. Vimos uma Varanasi diferente de anos atrás e, ao mesmo tempo, sempre a mesma. Diferente no sentido de reformada, para melhor, em muitos aspectos. A mesma, por resguardar sua mística espiritual e a afetuosa receptividade de tal esfera devocional.

A esfera pertence a Shiva Shakti, Deus masculino-feminino que, para alguns é não-dual, para outros é dual e não-dual ao mesmo tempo. Como o vemos, enfim, dual e não-dual, ou seja, somos diferentes dEle, mas, também unos com Ele. Shiva Shakti permeia todas as coisas, as dinâmicas da vida e os seres viventes. Tudo está nEle, mas, Ele está além de cada coisa, de cada dinâmica e de cada ser. Ninguém existe independentemente dEle, nem faz nada sem Sua concessão.

Em Varanasi, penso nEle a cada instante, compreendendo Suas lógicas, e o vejo no pensamento de muitas pessoas. Diálogos são travados em diferentes momentos e circunstâncias sobre Shiva e/ou Shakti. Há muito a se ver por todos os lados que nos faça lembrar dEle/a, portanto, a cidade nos aproxima demais do Senhor de tudo e de todos/as. Ela nos faz meditar o tempo todo, se formos capazes disso. Desta forma, minha meditação expressa aqui algumas linhas, a partir do que Ele me fez pensar e compreender em torno de mim mesma e da experiência de estar viva.

Ler mais em https://jardinsdekrishna.com/2023/11/14/india-terra-sagrada-das-divindades/.



[i] Algumas informações turísticas básicas sobre Varanasi (Kashi) podem ser encontradas em https://kashibanaras.com/about-varanasi-kashi/. Acessada em 13 nov., 2023.


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Mahashivaratri

 


Maha significa grande, maior. Shiva é Mahadeva, Shankara, a Absoluta Consciência (Deus) que se personifica, assumindo diferentes humores. Ratri é noite. Portanto, o Mahashivaratri é a “Grande Noite de Shiva”.

Ele acontece anualmente no 14º dia da fase escura do ciclo lunar (no Krishna Paksha), ou seja, um dia antes da lua nova. No entanto, o festival se dá mais especificamente no mês de Magha, para os que seguem o calendário Amavasya – que considera a lua nova como início do ciclo lunar. Enquanto para os que seguem o calendário Purnimanta – que consideram que o ciclo lunar começa na lua cheia -, o festival se dá no mês de Phalguna.

Na verdade, todo 14º dia da fase escura do ciclo lunar mensal marca a ocorrência de um Masik Shivaratri. Só que, no mês de Magha e/ou no mês de Phalguna (dependendo do calendário que se siga), ocorre o Mahashivaratri.

Trata-se de um momento em que se deve meditar em Shiva ao longo de um período situado entre o início e o fim de tal 14º dia (o Chaturdashi). O horário exato do início e do fim é calculado, como no panchang. Dentro do período, usualmente, os templos fazem quatro processos completos de adoração a Shiva (nas faixas de horário de Prahar Puja).

É importante jejuar por completo entre o início e o fim do Chaturdashi Tithi, meditando em Shiva, servindo no Templo e lendo ou escutando as lilas (passatempos) ou ensinamentos dEle.

Busca-se pelas bençãos de Mahadeva, preferencialmente por liberdade espiritual dos emaranhados das teias cármicas e/ou por avanço em consciência transcendental. Deve-se desejar intensamente pelo conhecimento que nos aproxima mais dEle e pela pureza da intenção de servi-Lo e agradá-Lo através do amor.

O Mahashivaratri celebra também o casamento de Shiva Parvati e, portanto, a unidade perfeita entre forma e consciência, matéria e espírito. Afinal:

 

Shankara de cabelos avermelhados como o fogo e Parvati de pele de cor acastanhada escura se adoram mutuamente. A adoração é intensa e a relação é extática, fazendo com que o mundo tanto desapareça por completo quando esteja ele todo ali presente como parte de tal completa unidade. Shiva é a alma, enquanto Parvati é o corpo. Ele é a consciência, enquanto Ela é a forma que a mesma consciência desenha para si. Shiva é a luz e Parvati é a escuridão que a claridade da luz ilumina. Ele é o pensamento e Ela é a atitude que resulta do pensar. Eles se complementam e Sua complementaridade se faz evidenciar nos Seus primeiros momentos de intimidade após Seu casamento[i].

 

É importante buscar pela consciência de tal unidade tântrica e ao mesmo tempo de reciprocidade entre pessoas que se amam com perfeição. Assim é a relação que se deseja cultivar com a Pessoa de Deus (com Shiva). O Mahashivaratri abre espaço para que possamos sintonizar com as qualidades de Shankara e com Seu jeito de nos acomodar em um lugar único que nos pertence em Seu coração.

 



[i] Trecho do livro Bhakti-Rasa e o Caminho da Flor de Lótus, de Shri Krishna Madhurya (2016).

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Shiva Shakti Tantra

 


Conceituo Tantra, como sendo “filosofia e prática; e um conjunto de tratados e de conhecimento, que visa a abordar o ser humano em suas múltiplas dimensões”. No caso específico de Shiva Tantra, este conjunto se baseia essencialmente na adoração à Shiva Shakti, pois, tem-se como Meta de seu(s) processo(s) a União Mística com Deus (Shiva; ou Shakti no Shakti Tantra).

Aqui é importante introduzir a compreensão do que exatamente significa União Mistica com Ele. Então, Shiva explica:

 

União Mística não é mera ilusão de acreditar-se que se alcançou a fusão da forma com o que está acima da usual humana compreensão. Por União Mística que se compreenda um estado de completa conclusão ou síntese do que se entende como sendo a contraparte que busca se unificar com a Contraparte que a unifica por qualificá-la como quem Consigo conseguiu se unir. Unir-se é Comigo para sempre estar, junto de meu pensar se deixar permanecer e ao que Eu sinto permitir-se também sentir. Sendo assim, para desta forma viver, alguém tem que, com profundidade, se deixar à Minha Pessoa conhecer. Sem realizar-me enquanto tal, não há como experimentar à verdadeira forma de União que Mística na eternidade se faz”.


Para tanto, em uma dentre tantas outras estratégias tântricas, dá-se orientação ao despertar da kundalini, a qual, a partir da base da coluna, irá ascender ao chakra da coroa, causando libertação e iluminação espiritual. A kundalini é uma fagulha da própria energia feminina (Shakti) presente na experiência de vida de cada alma individual (jiva) e a libertação desta última está na realização da união dela com sua Fonte (Shaktiman) ou Shiva, a Consciência Absoluta.

Tal união entre Shiva e Shakti, em Shiva Tantra, é buscada por meio do uso de prática espiritual (sadhana) e aplicação de instrumentos tais como mantras, yantras e rituais. Mas, no caso da busca personalista por tal unidade com o Senhor, deve-se compreender que não existe propriamente uma fusão da alma com Seu Criador/Sustentador/Destruidor. O que existe é a realização dentro de si do que é essência masculina e, portanto, da fagulha de Shiva, a qual lhe faz ser existente.

Ademais, tal realização se completa quando, ainda no íntimo da pessoa humana, à fagulha de Shakti se realiza, sendo ela a porção de essência feminina que, na interação com a masculina, concede vida e movimento para o ser individual.

(...). Trata-se de uma União que não é fusão completa e eterna, porque, embora seja de fato um tipo de fusão, ela não representa a perda da identidade individual da alma, enquanto associada da Pessoa de Deus. Então, fundir-se com Deus, conforme o que aqui se descreve é, e ao mesmo tempo não é, autopercepção não-dual e/ou dual para com Ele.

Esta forma de Tantra pode ser estudada e praticada em dedicação exclusiva ou em paralelo a outras práticas religiosas e esotéricas, de modo a complementá-las e reforçá-las, bem como de suprir deficiências e aumentar as oportunidades de avanço em vida espiritual. Deve-se, porém, compreender que a União entre Shiva e Shakti é a união entre a matéria e o espírito ou a forma e a consciência, o que só é possível de realizar através da união entre a alma e sua Fonte.

Sendo assim, tal Mística União não deve ser vista como um mero símbolo de intercurso sexual, como alguns pensam que seja, embora de fato qualquer elemento da vida possa ser compreendido como canal de acesso à Divindade. Acontece que o Tantra não-dualista baseia-se na percepção impessoal do Brahman, que está em tudo. Portanto, quem o pratica pode buscar por Deus através da observação e contato com qualquer evento ou mecanismo da natureza e da vida.

Não há nada de errado em entender que a vida seja assim, mas, quando partimos de uma percepção dualista/não-dualista (Bhedabheda) e, mais particularmente, pessoal de Deus (Religião Bhagavata), vemos o Tantra como um conjunto de oportunidades para que o Todo seja tocado pela alma que busca por seu Foco de Origem, que é também a sua Meta Última.

Segundo tal compreensão, o Supremo Brahman é a refulgência de Bhagavan (Pessoa Absoluta), a qual ilumina o mundo e esclarece a consciência, devendo ser compreendido e realizado, para que haja sublimação do ato de ser e superação da ignorância (Avidya).

 

Artigo obtido do livro Shiva Tantra para a Libertação Espiritual, de Shri Krishna Madhurya, Editora Sétimo Raio – RJ, 2017.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Rudraksha

 


Rudra é um dos nomes de Shiva e aksha significa lágrimas, pois na eternidade de tais contas sagradas, é desta maneira que elas aparecem – das lágrimas de Shiva. Mahadeva se ornamenta com elas, oferecendo-as aos Seus devotos. Sendo assim, usar rudrakshas nos aproxima mais dEle. Elas podem ser usadas na forma de colares, pulseiras, braceletes e japa malas. Em todos os casos, contém em si a energia divina de Shankara.

Biologicamente, elas são sementes de uma planta chamada Elaeocarpus ganitrus. Trata-se de uma planta arbórea, com distribuição original na região dos Himalaias e outras regiões, principalmente em Índia, Nepal e Indonésia. Na Índia, ela é cultivada com frequência em jardins, nos templos e em muitos outros lugares. No entanto, as que têm a energia mais pura e poder magnético mais intenso são as provenientes dos Himalaias. Afinal, Mahadeva faz ali Sua morada (em Kailash).

Além de predisporem mais os devotos à meditação, elas têm outras propriedades, inclusive medicinais. São mencionados efeitos sobre o sistema nervoso, a mente, o sangue, a pele e a imunidade. 

Desde um ponto de vista transcendental, rudrakshas têm poder de dar a associação de Shiva aos puros de coração. Além do que, quem as usa com constância haverá de adquirir qualidades devocionais. Ao cantar os mantras de Mahadeva usando-as, obtém-se clareza da consciência, harmonia para a vida e propensão ao aprofundamento em espiritualidade.

Deve-se cuidar, no entanto, para adquirir contas verdadeiras de rudraksha. Existem no mercado contas falsificadas, confeccionadas de plástico. Elas são mais leves do que as originais e, quando colocadas em água, boiam, ao contrário das sementes naturais, que afundam na água. É preciso haver a energia da planta para que as contas surtam os efeitos desejados. Há menções também a contas falsas de outra planta, as badrakshas, as quais não têm as mesmas propriedades das contas originais.


SHIVA

  Shiva é uma dádiva que se fornece por Ele mesmo para o ser humano de cada uma das épocas ter consciência de si e de Deus. Ele se faz compr...